Administrar uma fazenda leiteira não é fácil, principalmente quando os custos de produção aumentam mais rapidamente do que a renda
Administrar uma fazenda leiteira não é fácil, especialmente quando os custos de produção aumentam mais rápido do que a renda. As regras de precificação do leite estão entre as principais razões pelas quais o número de fazendas nos EUA caiu 95% desde a década de 1970.
Enquanto o número de fazendas leiteiras diminui, o tamanho médio do rebanho – o número de vacas por fazenda – aumentou significativamente, com mais de 60% de toda a produção de leite americana concentrada em fazendas com mais de 2.500 vacas.
Gráfico 1. Número de operações com vacas leiteiras e tamanho médio (vacas/fazenda).

Por que as fazendas leiteiras estão fechando?
A forma como os produtores de leite são remunerados é uma das maiores complicações. Em 1937, a Federal Milk Marketing Orders, ou FMMO (em tradução livre, ordens federais do mercado do leite), foram estabelecidas sob o Agricultural Marketing Agreement Act . O objetivo dessas ordens era definir um preço mínimo mensal e uniforme para o leite com base em seu uso final, garantindo que os produtores fossem pagos de forma justa e em tempo hábil.
Os produtores recebem de acordo com o destino do leite ordenhado: o leite engarrafado pertence à Classe 1, o iogurte à Classe 2, o queijo cheddar à Classe 3, e a manteiga ou leite em pó à Classe 4. Tradicionalmente, a Classe 1 obtém o preço mais alto. O país é dividido em 11 regiões da FMMO, cada uma com diferentes ênfases de produção: as regiões da Flórida, Sudeste e Apalaches se concentram mais no leite Classe 1, enquanto o Meio-Oeste Superior e o Noroeste do Pacífico produzem mais derivados, como queijo e manteiga.
Nas últimas décadas, os produtores receberam, em média, o preço mínimo estabelecido. Melhorias na qualidade do leite, produção de leite, transporte, refrigeração e processamento, além de aumentar a produção, o maior prazo de validade e maior acesso aos produtos nos EUA, elevaram a oferta de leite e diminuíram a competição entre plantas de processamento, impactando negativamente os preços.
Esses avanços na produção vieram acompanhados de um aumento nos custos operacionais, incluindo alimentação do gado, mão de obra, cuidados veterinários, combustível e maquinário. Em 2022, pesquisadores da Universidade do Tennessee compararam o preço recebido pelo leite nas várias regiões do país com os custos principais de produção, como ração e mão de obra, revelando as dificuldades enfrentadas pelos produtores.
Entre 2005 e 2020, a receita média da venda de 100 libras (cerca de 43,5 litros) de leite variou entre US$ 11,54 e US$ 29,80, com uma média de US$ 18,57. Já os custos de produção para o mesmo volume variaram de US$ 11,27 a US$ 43,88, com uma média de US$ 25,80. Em média, uma vaca que produz 24.000 libras de leite gera cerca de US$ 4.457 em receita, enquanto os custos de produção totalizam US$ 6.192, resultando em prejuízo para o produtor.
Fazendas maiores e mais eficientes conseguem reduzir os custos de produção por meio de melhorias na saúde animal, reprodução, eficiência de conversão alimentar e aumento de produtividade, além de diluir seus custos. Cooperativas, como a Dairy Farmers of America, e produtores de grande porte também podem utilizar contratos futuros para grãos e preços do leite. Tecnologias de precisão, como ordenha robótica, salas rotativas e dispositivos para monitoramento de saúde e reprodução, podem ajudar a diminuir custos de mão de obra em todas as fazendas.
Independentemente do porte, sobreviver no setor leiteiro exige paixão, dedicação e uma gestão empresarial cuidadosa.
E o número de fazendas no Brasil?
Resultados similares são encontrados no Brasil. A MilkPoint Ventures atualizou os dados da pesquisa “Quem Produz o Leite Brasileiro?”, em 2024, com 65 laticínios voluntários (43 não-cooperativas, responsáveis por 58% do leite captado na amostra e 22 cooperativas, com 42% do volume). O levantamento coletou dados sobre a estratificação dos produtores, sistemas de produção, qualidade e composição do leite.
A pesquisa evidenciou um impacto estrutural na cadeia produtiva do leite, semelhante ao observado nos EUA, caracterizado pela redução no número de produtores e pelo aumento no tamanho médio das propriedades. Comparando os dados das empresas que participaram das pesquisas de 2013, 2023 e 2024, observa-se um crescimento de 9% no volume médio de produção entre 2023 e 2024, passando de 1.012 para 1.104 litros por produtor/dia. Em relação a 2013, o aumento foi de 89%, evidenciando um crescimento contínuo e significativo do setor ao longo dos anos.
O estudo também comparou a captação de leite e o número de produtores nas 36 empresas que participaram tanto em 2023 quanto em 2024, revelando um aumento de 1% na captação, enquanto o número de produtores caiu 1,2%.
Gráfico 2. Número de produtores e captação de leite das mesmas empresas 2023 vs 2024 (36 empresas).

Ao analisar dados individuais, algumas empresas em expansão conseguiram aumentar sua base de captação. Ainda que esses produtores provavelmente já fornecessem leite para outros laticínios, essa expansão pode ocultar uma queda ainda mais acentuada no número total de produtores.
Ao observar os dados das 15 empresas que participaram das pesquisas realizadas em 2013, 2023 e 2024, notou-se uma queda de 14% no número de produtores de 2023 para 2024, e uma redução de 7% no volume captado. Com menor volume de captação, o número de produtores também caiu, embora isso não signifique necessariamente que todos deixaram a atividade; muitos podem ter migrado para fornecer leite para outros laticínios.
A pesquisa de 2024 ressalta a continuidade da transformação do setor leiteiro brasileiro, reflexo tanto de mudanças recentes quanto de um processo em curso há décadas. Fatores estruturais, como maior tecnificação, uso crescente de sistemas intensivos e aumento das exigências de qualidade, seguem impactando o setor.
Fonte: The Conversation [traduzido] e relatório Quem Produz o Leite Brasileiro








