Como os alimentos de origem animal nutrem o mundo em tempos de alterações climáticas
O mundo atualmente enfrenta um grande desafio. Como produzir alimentos para sustentar quase 10 bilhões de pessoas em 2050 e manter um sistema terrestre estável?
Evidências científicas demonstram que a produção de alimentos é uma das maiores responsáveis pelas mudanças ambientais globais, o que contribui para mudanças climáticas, alteração da biodiversidade, do uso de água doce, interferência nos ciclos globais de nitrogênio e fósforo e mudanças no sistema global.
A partir de 30 de novembro de 2023, representantes de quase 200 países se reunirão em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para coordenar ações globais climáticas na 28ª Conferência do Clima da ONU ( COP28).
Tal abordagem é fundamental nos tempos atuais visto que assim como uma das metas da COP 28 é “Colocar a natureza, as pessoas e as comunidades no centro das ações climáticas, incluindo o auxílio para que os mais vulneráveis se adaptem às mudanças que já estão ocorrendo” a discussão deste evento paralelo tem como um dos objetivos explorar o papel dos alimentos territoriais de origem animal na segurança nutricional e na ação climática, em particular no caso de populações vulneráveis, incluindo mulheres e crianças.
A Comissão EAT-Lancet, da The Lancet, publicou um documento trazendo pesquisas recentes sobre dietas saudáveis e produção sustentável de alimentos. O material foi produzido por 37 cientistas de 16 países diferentes.
Assunto recorrente tanto no documento acima quanto no Coller FAIRR Protein Producer Index 2023/24 de novembro de 2023 ( índice que avalia 60 das maiores empresas listadas no mundo, empresas de carnes, laticínios e aquicultura e sua influência em fatores como emissões de gases de efeito estufa, desmatamento e biodiversidade, utilização e escassez de água, resíduos e poluição, antibióticos, condições de trabalho, bem-estar animal, alimentos segurança, governança e proteínas alternativas), o papel da proteína animal, tem destaque quando se fala de segurança alimentar e o enorme déficit nutricional que assola o mundo.
De acordo com o Relatório Sumário Comissão EAT-Lancet publicado em 2019 e atualizado em 2021 “Sem ação, o mundo corre o risco de não cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e o Acordo de Paris, e as crianças de hoje herdarão um planeta gravemente degradado e onde grande parte da população sofrerá cada vez mais desnutrição e doenças evitáveis!”
É notório que a segurança alimentar é tema de preocupação mundial e que o enorme déficit nutricional tem impacto importante no desenvolvimento e na economia mundial.
Os alimentos de origem animal são fonte de nutrientes importantes como proteínas, ácidos graxos e diversas vitaminas e minerais e contribuem para a nutrição e a segurança alimentar.
O leite é um alimento rico em nutrientes contendo proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e sais minerais. É um alimento fundamental na dieta dos seres humanos e é utilizado de diversas maneiras pela população em todas as faixas etárias.
Segundo a literatura mundial, o leite de vaca é fonte relevante de nutrientes, principalmente cálcio e proteína, elementos fundamentais para um crescimento e envelhecimento saudável. Um copo de leite (200 ml) contém, aproximadamente, 244 mg de cálcio e 6,4 g de proteína, o que configura uma oferta maior que 10% da recomendação dos dois nutrientes para todas as faixas etárias em uma única porção do alimento.
Os artigos científicos demonstram que o consumo de leite por crianças a partir de um ano de idade, aumenta o aporte de nutrientes essenciais como cálcio, magnesio, fósforo, proteína, riboflavina, vitamina A, vitamina B12, vitamina D, selênio, potássio e colina o que influencia diretamente no seu crescimento, hidratação e melhora no desempenho cognitivo. Para crianças, a pirâmide da Sociedade Brasileira de Pediatria, recomenda 3 porções diárias de lácteos após o desmame e até a vida adulta e a Sociedade Europeia (ESPGHAN) recomenda o leite e sugere um máximo de 500 ml por dia.
Descobertas de revisões sistemáticas sobre o consumo de leite e laticínios mostram que o consumo de leite e laticínios está associado a menor risco de atraso no crescimento, maior altura, maior conteúdo mineral e densidade óssea, e menor risco de sobrepeso e obesidade (Abrams, 2021; de Lamas et al., 2019; Dror, 2014; Lu et al., 2016).
A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) recomenda a promoção do leite como parte de dietas diversificadas e saudáveis para bebês, crianças em idade escolar e adolescentes, com adaptações baseadas no contexto, como preferências culturais, histórico, status nutricional e padrões alimentares (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, 2023).
Segundo a Federação Internacional de Laticínios, atualmente, mais de 160 milhões de crianças ao redor do mundo recebem e se beneficiam de programas de distribuição de leite escolar (FIL,2020).
O Programa Mundial de Alimentos (WFP,2020) publicou o documento “Estado da Alimentação Escolar no Mundo” e afirma que “as evidências mostram que os programas de alimentação escolar, juntamente com outras iniciativas de proteção social, estão entre os investimentos de longo prazo mais inteligentes que qualquer governo pode realizar”.
Assim, as equipes do WFP em vários países estão trabalhando ao lado de governos ao redor do mundo para reabrir as escolas com segurança e assegurar que as necessidades alimentares, nutricionais e de saúde das crianças mais pobres estão sendo satisfeitas.
Estima-se que o investimento global anual na alimentação escolar esteja entre US$41 bilhões e US$43 bilhões, a maior parte proveniente de orçamentos nacionais de governos (WFP, 2020).
No Brasil, Associação Brasileira das Pequenas e Médias Cooperativas e Empresas de Laticínios (G100) preocupada com a necessidade de elevar a oferta de leite, alimento de alto valor nutricional, propôs ao Governo uma política emergencial e estruturante de longo prazo, o que vem ao encontro das metas da EAT- Lancet , da Coller FAIRR, mas sobretudo da FIL/IDF e EDA. Para isso a Associação apresentou ao Senhor Vice-presidente da República e Ministro do Desenvolvimento , Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) um programa emergencial (Veja nas referências anexo I e II Ofício G100 N 1411 2023.pdf), voltado a inclusão de aproximadamente 11.9 milhões de crianças e adolescentes de 02 a 15 anos ( crianças na faixa de aleitamento materno não serão incluídas) filhas de famílias que estão inscritas no Programa Bolsa Família do Governo brasileiro no consumo de leite, alimento importantíssimo quando se fala de nutrição de qualidade.
O “Projeto Emergencial e Estruturante para a cadeia láctea brasileira” tem como população alvo crianças e adolescentes de 02 a 15 anos que tem sensível e urgente necessidades de acesso a alimentos ricos em proteínas e cálcio. O objetivo é promover o crescimento da cadeia produtiva do leite visando garantir quantidade e qualidade que levem à autossuficiência brasileira de leite e laticínios, tanto para o abastecimento interno quanto para a geração de excedentes de qualidade para exportação. Este está dividido em duas grandes vertentes: a primeira emergencial (Anexo I), a qual dará condições mais imediatas para o acesso destas crianças e adolescentes ao alimento através de repasse do Estado através de campanhas escolares e a segunda estrutural (Anexo II) a médio e longo prazo onde metas serão traçadas de forma a garantir uma política de governo atuante que possa contribuir de forma contínua para que o país se torne autossuficiente na produção de leite com a qualidade e responsabilidade que exige os sistemas sustentáveis.
As bases para o desenvolvimento da cadeia de produção de leite dependem necessariamente da implementação de medidas estruturantes de médio e longo prazo, por isso são de responsabilidade de “Estado”, que estão diretamente relacionadas às melhorias indispensáveis na qualidade média do leite e seus derivados, assim como ao aumento médio das escalas de produção, processamento e consumo (ou seja, aumento da renda média do brasileiro e criação de excedentes exportáveis).
Os 10 pilares básicos estruturantes são: educação básica formal, educação sanitária, eletrificação rural, saneamento rural, comunicação (telefonia e dados – internet),gestão estratégica dos processos produtivos, existência de capital de giro e de investimento acessível para a atividade, legislações higiênico sanitárias alinhadas com realidade das infraestruturas físicas, sociais e de capacidades financeiras da cadeia e da capacidade governamental de ação e recursos para o PD&I.
A curto prazo são necessárias ações estruturantes com ênfase na política tributária, infraestruturas de apoio aos sistemas produtivos da cadeia láctea de estradas/pontes vicinais; energia de qualidade no campo e indústrias; rede e estrutura de laboratórios para análise do leite e assistência pública à produtores; máquinas e equipamentos para produtores e indústria de leite ; intensificação da educação na área rural; assistência técnica de gestão e finalmente políticas públicas voltadas a tornar mais equilibrada a relação entre o grande varejo e o setor produtivo de leite e derivados.
A implementação do conjunto dessas ações vai ao encontro dos objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e o do Acordo de Paris na medida que estas ações em conjunto a longo prazo podem interferir diretamente na mitigação do desmatamento, na emissão de carbono e gás metano contribuindo para sistemas sustentáveis e garantindo uma fonte alimentos importantíssima de alta qualidade.
A proposta estruturante representa um elemento importante para induzir a implementação de políticas públicas e privadas integradas, visando aumentar a competitividade do setor e garantir o acesso da população carente às qualidades nutritivas mundialmente reconhecidas do leite e seus derivados.
Diante do exposto é possível perceber que há alinhamento direto entre as ideias aqui expostas no Projeto Emergencial e Estruturante para a cadeia láctea brasileira, das entidades como Federação Internacional de Lacticínios (IDF) e a Associação Europeia de Lacticínios (EDA) com as demandas e preocupações que serão discutidas na COP 28. Importante frisar que a partir de ações dinâmicas como as descritas acima é possível abordar as desigualdades sociais e de saúde que estão frequentemente ligadas a maus hábitos alimentares e falta de acesso a uma dieta equilibrada e saudável e incentivar a adoção de transição para sistemas alimentares mais sustentáveis com redução da emissão de carbono, diminuição do desmatamento e consequentemente contribuir para mitigação das alterações climáticas garantindo uma fonte de alimento de alta qualidade .
REFERÊNCIAS
EAT-Lancet Commission. Dietas Saudáveis A Partir De Sistemas Alimentares Sustentáveis: Alimento, planeta e saúde. Relatório Sumário. This report was prepared by EAT and is an adapted summary of the Commission Food in The Anthropocene: the EAT-Lancet Commission on Healthy Diets From Sustainable Food Systems. Disponível: https://eatforum.org/content/uploads/2019/04/EATLancet_Commission_Summary_Report_Portuge
COP 28 disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/251922-cop28-momento-cr%C3%ADtico-em-nossa-luta-coletiva-contra-crise-clim%C3%A1tica
Coller FAIRR Protein Producer Index 2023/24 Disponível https://www.fairr.org/resources/reports/protein-producer-index-2023
Conecta Brasil disponível em :https://conectabrasil.org/#/blogs/details/ods-1-significado-pacto-global
Contribution of terrestrial animal source food to healthy diets for improved nutrition and health outcomes – An evidence and policy overview on the state of knowledge and gaps. Rome, FAO,2023. https://doi.org/10.4060/cc3912e
Nutrição e Saúde disponível em : https://filbrasil.org.br/subcomite-de-nutricao-saude/
Anexo I e II Ofício G100 14-11- 2023.PDF. Protocolado em 13 de novembro de 2023 – Ao Ministro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC)
WFP. 2020. Estado da Alimentação Escolar no Mundo 2020. Roma, Programa Mundial de Alimentos. ISBN 978-92-95050-10-5 (print) ISBN 978-92-95050-11-2 (online)
Fonte: Terra Viva







